Estamos diante de paisagens, paisagem como ocupação do espaço, paisagem como proliferação gráfica. Lembrei de quando, há pouco, atrevessava a linha férrea, na minha cidade de origem, a placa de sempre, nesse momento, teve força de primeira vez: pare, olhe, escute. 

Esses desenhos tem algo a dizer em vários tons, as texturas dos materiais de inscrição ao encontrar o suporte podem ser timbres de vozes. 

Uma série de mapas com percursos de metáforas de um mundo interior, que acaba de aprofundar suas raízes. Num encontro de coisas vivas, um fluxo de composição-texto, composição-coral, composição-constelação. 

Olho para uma camisa com estampa de estrelas, paro para fazer um bolo. Cada ingrediente, guardado em separado, o modo como se movem em direção a um grande encontro, uma bagunça, as misturas, a composição pronta para comer. Se dentro de cada desenho acontece como quando se faz um bolo, a parede também é mesa. 

Um mundo do desenho habitado por animais, plantas, objetos, seres humanos e seres fantásticos feitos de textura gráfica, densidade de materiais, cor e de um estado de espírito aberto para a natureza sensível de todas as coisas. Talvez todas as imagens sejam sobre formas de encontros, de pessoas, animais, coisas, de materiais, lápis, cor, carvão, papel e de planos, visível, imaginário, espiritual. 

Um desenho que segue brincando com as escalas, numa gradação de pequenos grandes corpos que foi festa e que depois descansa a cabeça num travesseiro macio. Nessa hora lençóis de papel sacodem com o vento das asas de pássaros que revoaram no corredor de casa.  

Paro para conversar com Carlos Scliar, que me diz de si mesmo e de nós todos desenhadores: se estes desenhos estimularem algum amor às coisas vivas (e penso, aos recomeços, aos fluxos e aos fins), terá valido a empreitada. 

- Daniela Maura